Pagamentos Internacionais em 2025: O Que os Empreendedores Portugueses Precisam de Saber

29
May
2026

 

Portugal tem uma das maiores diásporas da Europa. Há portugueses espalhados por França, Suíça, Reino Unido, Luxemburgo e além - e todos eles enviam dinheiro para casa, apoiam projetos, compram de empresas portuguesas, e financiam campanhas de crowdfunding em plataformas como a PPL. Do outro lado, as empresas e criadores nacionais recebem esse dinheiro… ou tentam recebê-lo.

O problema é que, em cada transferência internacional, uma fatia do dinheiro desaparece. Não por magia - por comissões, taxas de câmbio desfavoráveis e sistemas bancários que ainda funcionam com a lógica dos anos 90. Para um empreendedor que angaria 10 000 € de apoiantes espalhados pela Europa e pelo mundo, a diferença entre um sistema de pagamentos bem escolhido e um mal escolhido pode ser a diferença entre sair no positivo ou ficar a perder.

Este artigo explica como funcionam os pagamentos internacionais em 2025, porque é que são relevantes para quem lança projetos em Portugal, e o que podes fazer para pagar menos por cada euro que atravessa uma fronteira.

 

O custo invisível dos pagamentos internacionais

 

 

 

As comissões bancárias tradicionais e as taxas de câmbio podem consumir uma fatia significativa de cada transação internacional, muitas vezes sem que o remetente ou o destinatário se aperceba

Começa pelos números. Segundo o Banco Mundial (Remittance Prices Worldwide, Q1 2025), o custo médio global de enviar remessas internacionais foi de 6,36% do valor enviado. Os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável da ONU fixaram uma meta de 3% até 2030 - estamos a mais do dobro disso.

A distinção entre canais digitais e não digitais importa aqui. Os pagamentos digitais custam em média 4,96%, enquanto os canais não digitais chegam a 6,94%, segundo a mesma fonte. Parece uma diferença pequena, mas não é.

Pensa nisto de forma concreta: uma campanha de crowdfunding que angaria 5 000 € de apoiantes internacionais, usando um banco tradicional com taxa de 6,94%, perde 347 € em comissões antes de o dinheiro chegar à conta. Com um canal digital bem escolhido a 4,96%, esse valor cai para 248 €. São quase 100 € a mais para o projeto, sem alterar nada na campanha.

Multiplicado por campanhas maiores, ou por uma empresa que exporta regularmente, este custo torna-se uma variável de negócio real. Aqui, a escolha do sistema importa: soluções especializadas em processamento de pagamentos internacionais operam com custos muito abaixo da média bancária tradicional.

 

O mercado de pagamentos transfronteiriços está a crescer - e Portugal também

 

 

 

O mercado global de pagamentos transfronteiriços ultrapassou os 371 mil milhões de dólares em 2025, impulsionado pela digitalização e pela expansão dos sistemas de pagamento imediato

O mercado global de pagamentos transfronteiriços foi avaliado em USD 371,59 mil milhões em 2025 e projeta-se que atinja USD 727,74 mil milhões em 2034, com uma taxa de crescimento anual composto de 7,9%, segundo a Fortune Business Insights (2025). Não se trata de uma tendência de nicho - é uma transformação estrutural da forma como o dinheiro circula no mundo.

Portugal está no centro desta mudança, e em melhor posição do que a maioria imagina. As remessas dos emigrantes portugueses atingiram 4.295,72 milhões de euros em 2024 e cresceram mais 2,14% em 2025, estabelecendo um novo recorde histórico, de acordo com dados do Banco de Portugal publicados pelo ECO.pt em fevereiro de 2026. No sentido inverso, os imigrantes em Portugal enviaram 915,64 milhões de euros para os seus países de origem em 2025, uma subida de 4,93%.

Em termos de infraestrutura, Portugal também está na frente. No sistema europeu TIPS (Target Instant Payment Settlement), foram liquidadas 455 milhões de transferências imediatas em 2024, no valor de 283 mil milhões de euros - um aumento de 70% em quantidade face ao ano anterior, segundo o Relatório dos Sistemas de Pagamentos 2024 do Banco de Portugal. Portugal integra ainda a aliança MB Way-Bizum-BancomatPay, que permite transferências concluídas em menos de 10 segundos entre Portugal, Espanha e Itália.

Mas os pagamentos internacionais não se limitam às transferências entre particulares. Para as empresas e criadores que precisam de receber ou enviar dinheiro além-fronteiras de forma regular e previsível, as plataformas fintech especializadas estão a ganhar quota de mercado perante os bancos tradicionais. A razão é simples: mais rapidez, menos comissões, e mais transparência em cada transação.

Um dado que confirma o apetite português por esta evolução: 62% dos portugueses afirmam que usariam soluções de transferências instantâneas internacionais - uma proporção muito superior à do Reino Unido, onde apenas 8% diria o mesmo, segundo o relatório “Digitalização dos fluxos de pagamento entre particulares” da Nuek (2025).

 

Pagamentos internacionais e crowdfunding: uma ligação que muitos ignoram

 

 

 

Os projetos de crowdfunding que atraem apoiantes internacionais dependem de sistemas de pagamento eficientes para garantir que os fundos chegam sem perdas desnecessárias

Muitos projetos que passam pela PPL têm apoiantes de fora de Portugal - membros da diáspora, comunidades europeias, amigos e familiares que vivem noutros países. O ecossistema de financiamento colaborativo em Portugal cresce de ano para ano, e com ele cresce o volume de transações internacionais associadas a essas campanhas.

O problema que poucos criadores antecipam: cada país tem as suas regras, cada plataforma de pagamento tem as suas comissões, e a conversão cambial raramente é favorável quando usas os canais errados. Um apoiante que envia 50 € do Reino Unido pode, depois da conversão e das taxas, fazer chegar apenas 45 € à tua campanha - ou menos. E se o volume de apoiantes internacionais for significativo, esses valores acumulam.

O Financial Stability Board (FSB), no âmbito do G20 Roadmap for Enhancing Cross-Border Payments, identifica os obstáculos ainda não resolvidos no sistema global: velocidade insuficiente, custos elevados, acesso limitado, e falta de transparência. O FSB estabeleceu metas concretas para 2027, incluindo que 75% das transações internacionais sejam concluídas em menos de uma hora. Ainda não estamos lá.

Para quem escolhe o modelo de crowdfunding certo para o seu projeto, a escolha do sistema de pagamentos devia ser uma decisão igualmente ponderada - não uma escolha que fica por default no que a plataforma oferece.

 

Como escolher uma solução de processamento de pagamentos internacionais

 

Nem todos os sistemas de pagamento são iguais. Antes de decidir qual usar para o teu projeto ou negócio, há quatro critérios que fazem a diferença:

Transparência de taxas. A comissão declarada raramente é o custo real. Acrescenta a taxa de câmbio aplicada, a comissão de levantamento, e as eventuais taxas de receção. Pede sempre o custo total antes de fechar.

Velocidade de liquidação. Os bancos tradicionais demoram dois a cinco dias úteis. As plataformas fintech modernas liquidam em poucas horas, ou em tempo real. Para campanhas com prazos, isto importa.

Cobertura geográfica. Se tens apoiantes na França, no Brasil, e na Alemanha ao mesmo tempo, precisas de uma solução que cubra os três sem tratamentos diferentes para cada país.

Integração com as ferramentas que já usas. Uma plataforma de pagamentos que não se liga à tua contabilidade, ao teu banco ou à tua loja online cria mais trabalho manual - e mais margem de erro.

A diferença entre bancos tradicionais, operadores de transferência de dinheiro e fintechs modernas não é apenas de preço. É de modelo. Os bancos processam pagamentos como serviço acessório; as fintechs especializadas fazem disso o seu negócio principal. Em 2025, a Mastercard registou um crescimento de 20% no volume de transações transfronteiriças; a Visa registou 16%, segundo dados da Fortune Business Insights (2026). Esse crescimento acontece porque mais empresas e criadores perceberam que há alternativas aos circuitos bancários convencionais.

O J.P. Morgan, no seu relatório 2025 Cross-Border Payment Trends for Financial Institutions, aponta que os sistemas de pagamento em tempo real já estão presentes em mais de 70 países e que a adoção cresce de forma consistente. A tendência de orquestração de pagamentos - usar múltiplos métodos em simultâneo para reduzir custos e aumentar a taxa de sucesso - é a abordagem que as empresas mais sofisticadas já usam.

 

O futuro dos pagamentos internacionais: mais rápido, mais barato, mais regulado

 

Há três movimentos a acompanhar nos próximos anos.

O primeiro é o ISO 20022 - o novo padrão de mensagens para transferências internacionais. Este formato permite mais dados por transação, o que reduz os erros e acelera a liquidação. Em dezembro de 2025, 78% dos correspondentes bancários europeus já tinham migrado para este padrão, segundo a SWIFT.

O segundo é o euro digital. A fase de desenvolvimento atual terminou no final de 2025, e o Banco Central Europeu decidiu avançar. Quando estiver disponível, o euro digital vai permitir pagamentos transfronteiriços dentro da zona euro com liquidação imediata e sem intermediários bancários. A data de adoção em larga escala ainda está em aberto, mas a direção é clara.

O terceiro é a expansão dos sistemas de pagamento imediato. Em janeiro de 2026, a Visa expandiu o serviço Visa Direct para mais 47 países, permitindo transferências para titulares de cartões em menos de 30 minutos. Segundo o Banco Mundial (Remittance Prices Worldwide), o objetivo é que os pagamentos digitais continuem a baixar de preço à medida que a concorrência entre plataformas aumenta.

Para quem está a angariar fundos para o seu projeto, gerir bem os pagamentos recebidos é tão importante quanto gerir a campanha em si. Um projeto que angaria com sucesso mas perde 5% dos fundos em comissões é um projeto menos bem gerido do que parece.

 

Pagamentos internacionais não são um detalhe - são estratégia

 

A questão já não é saber se os pagamentos internacionais afetam o teu projeto. É saber o quanto estás a deixar escapar por usar os canais errados.

O custo médio de 6,36% do Banco Mundial não é uma estatística abstrata. É dinheiro que sai da tua campanha, do teu negócio, do teu projeto - de forma silenciosa e sistemática. Com os sistemas certos, esse custo desce para menos de 5%, e em alguns casos muito menos.

A boa notícia é que as ferramentas existem. A infraestrutura está a melhorar. Portugal está bem posicionado - com MB Way, com o TIPS, com a aliança europeia de pagamentos imediatos. O que falta, muitas vezes, é que os criadores e empreendedores portugueses tratem os pagamentos internacionais com a mesma seriedade com que tratam o produto, a comunicação e a campanha. Não é uma questão de “se” vais precisar - é uma questão de quando, e se estarás preparado.