Ajude a preservar uma casa que faz parte do património histórico da restauração lisboeta
Mais do que um restaurante, o Faz Figura é um ponto de encontro, guardião de histórias e memórias partilhadas à mesa. Há mais de 50 anos que o FF recebe gerações de clientes, vizinhos, visitantes e amigos, servindo não só comida, mas também identidade, tradição e hospitalidade. Cada mesa, cada parede, carrega histórias que fazem parte da vida da cidade. Hoje, esse património está em risco.
A pandemia COVID teve um TRIPLO IMPACTO :
QUEDA ABRUPTA de RECEITAS, com efeitos entre 2020 e 2022. A única alternativa ao encerramento foi a contratação de Linhas de Crédito. Ou seja, ENDIVIDAMENTO, contraído pela mais absoluta necessidade, mas também baseado nas expectativas legitimamente criadas na altura, com base nas declarações públicas das autoridades relevantes, de que esses montantes poderiam ser transformados em Capital, o que não veio a suceder (deve, aliás, sublinhar-se que a Banca lucrou - e ainda hoje lucra - com a salvação de muitas empresas, cobrando juros injustificáveis. À data, recorde-se, existiam taxas de juro negativas).
ALTERAÇÃO DE HÁBITOS DE CONSUMO, com diminuição do ticket médio.
INFLACÇÃO: a conjuntura internacional levou a uma espiral inflacionista que, embora tenha entretanto sido mitigada, deixou marcas até hoje (por exemplo, os preços do peixe e da carne aumentam a um ritmo três a quatro vezes superior à inflação média).
Adicionalmente, há cerca de sete anos que o Faz Figura está rodeado de obras e limitações de acesso. Primeiro, foi a transformação do ex-Hospital da Marinha num complexo hoteleiro e residencial. Precisamente quando o público começou a ultrapassar o trauma Covid, o Faz Figura estava paredes meias com um enorme estaleiro, que obrigou a vários fechos parciais do restaurante e se arrastou mais de 3 anos para lá da data prevista (e não está ainda completamente terminado).
Mais recentemente (e com mais impacto), a Câmara Municipal de Lisboa iniciou as obras do Plano Geral de Drenagem de Lisboa. Sem prejuízo da sua importância, o impacto foi enorme: a principal artéria de acesso ao Faz Figura foi cortada (e transformada em estaleiro) no início de 2023, e assim continua e continuará durante 2026 (pelo menos).
No único acesso alternativo (via Feira da Ladra), um sinal de trânsito absurdo indica que o trânsito é proibido (o que na realidade não se verifica).
Sucessivas interpelações à C.M.L. de nada serviram. Para cúmulo, as obras levarão agora ao fecho da estação de Metro de Santa Apolónia, durante vários meses (embora, mais uma vez, a Câmara não preste informação rigorosa).
A Câmara tarda também em decidir sobre uma candidatura do Faz Figura ao estatuto de “Loja com História”. A candidatura foi apresentada em Janeiro de 2025 (o que é normal é haver dois momentos de decisão em cada ano – Abril e Novembro), mas só a 7 de Maio de 2026 foi dada aprovação preliminar, seguindo-se agora um período de consulta pública, até à aprovação final.
Trata-se, aliás, de um paradoxo absurdo: a entidade que está à beira de reconhecer o interesse histórico do Faz Figura é a mesma que mais problemas lhe cria.
Um pequeno negócio dificilmente sobrevive a tudo isto. Como tal, tivemos de pôr em prática um Plano de Reestruturação da empresa. O nosso objectivo é claro: preservar o Faz Figura, garantindo que continua aberto, fiel à sua história e às pessoas que o tornaram especial.
Ao longo dos anos, a cidade e o nosso bairro mudaram perante os nossos olhos (e não necessariamente para melhor). O Faz Figura é uma das poucas referências que ainda resiste nesta zona. Progresso e mudança são positivos, mas não à custa do desaparecimento da memória colectiva .
O eventual fecho de um restaurante histórico é uma perda para todos. É menos um espaço de memória, menos um ponto de encontro, menos cultura viva.
Somos parte de muitas vidas. Há quem cá tenha casado e já tenha feito o baptizado de três filhos; há quem tenha feito no FF a festa de casamento e depois a de divórcio. Não há semana que passe sem que algum cliente nos conte histórias do passado. É o que acontece quando se tem uma porta aberta há mais de 50 anos. Acreditamos que o FF merece continuar a fazer parte do presente e futuro da cidade, com a mesma alma de sempre.

